Reunidos em encontro recente, cujo objetivo me pareceu mais saudosista do que o de atingir metas futuras, sejam próximas ou distantes, cinco amigos desde o tempo da adolescência, entre os quais me incluía, ficamos jogando fora conversas informais. Os temas, evidente, variaram do futebol à política, e a trocas de impressões sobre como andam as coisas nas comunidades em que cada um vive. Faz-se importante dizer que, além da idade, todos somos nativos da mesma terra, além de alguns graus de parentescos distantes, como são naturais as proximidades de sangue em comunas pequenas em três ou mais gerações.
Mas escrevo para salientar um outro detalhe. Noto, cada vez mais, que é significativo o número de pessoas que não trabalham nas atividades que gostam. Nelas estão apenas por uma questão de sobrevivência, compromissos pessoais e/ou familiares, assim como uma série de outras razões que não cabe agora declinar. Não faz muito ouvi a confissão de um outro amigo que depois de 30 anos agindo nos mesmos compromissos profissionais, nos quais era extremamente competente e bem posicionado, disse-me que passara as três décadas trabalhando em funções (inclusive de chefia) com as quais não tinha afinidade. E, como ele, podemos ter vários outros exemplos em nossa volta, sendo a maioria com curso superior que nunca exerceram, por um dia sequer, a aprovação concedida pelo diploma.
Se olharmos à nossa volta, excetuando-se um pouco os da área da saúde, não conseguiremos contar os advogados, agrônomos, veterinários, administradores de empresas e jornalistas que trabalham longe desses conhecimentos acumulados. Uns quantos, é verdade, ingressaram em universidades porque as condições econômicas eram escassas e as oportunidades em suas voltas restritas. Entretanto, uma grande parte assumiu atividades distantes de seus interesses e não foi, de uma maneira ou outra, à luta pelo sonho maior. O resultado está à vista. Como conseqüência, contabilizamos pessoas sem referências, sem interesse no crescimento, bem como provocando disfunções no ambiente social. Triste é vermos gerações sem rumo, com posturas indesejáveis. Uma série, talvez sem o saber, encontra fuga em atitudes errantes. O alcoolismo é um exemplo. Triste, por sinal.
domingo, 26 de outubro de 2008
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Útil e agradável
Qualquer pessoa que esteja atenta ao patrimônio histórico de algum município percebe que as obras históricas se localizam, invariavelmente, nos centros das cidades. Por uma razão simples e óbvia. É a partir de um determinado ponto que surgem as urbes e seu crescimento horizontal e mesmo vertical se dá desde então do ponto zero. Uma viagem a qualquer endereço do mundo pode perfeitamente comprovar isso e, as obras periféricas, muitas delas valiosas e consistente, na verdade jamais farão parte dos primórdios da história de qualquer aglomeração urbana.
Ao se caminhar pela cidade de Bagé, que também possui a sua história e bastante rica em feitos com seus significados, perceberá, num primeiro momento, que restam poucos dos prédios mais antigos a partir do endereço de nascimento da sua urbanização. Talvez a Casa de Pedra, por sinal bastante menosprezada pelo simbolismo que esconde, seja um dos poucos endereços da que ainda permanece em pé, embora esteja impedida uma visita a seu interior, das antigas construções mais rústicas e sobre as quais existem lendas que jamais foram derrubadas.
Aquela casa, a de Pedra, é um patrimônio, evidente, público. Assim como o são tantas outras construções que mesmo permanecendo nas mãos de particulares tornaram-se pontas de orgulho de todo o cidadão bajeense. Ou seja, uma manifestação subjetiva que resultou na falta de distância entre a materialidade do ter e a espiritualidade do acervo comunitário que independe de todo e qualquer critério de classificação hierárquica, econômica ou social. É quando se diz aquela frase de senso comum de que essas coisas são nossas.
Teve alguém, num passado nem tão recente porém nem tão antigo, ou várias iniciativas que tiveram a idéia de realizar um inventário dos prédios históricos de Bagé, muitos deles inclusive saindo da esfera das boas intenções para entrar no rol da prática. Um exemplo é a casa do Visconde Ribeiro de Magalhães, dissecada em seus pormenores por profissionais e estudantes de arquitetura e cuja restauração, numa campanha meritória, levou até o momento apenas a restauração da capela que abriga, num esforço já decantado pelos meios de comunicação e reconhecido indistintamente.
Na mesma trajetória dever-se-ia fazer o mesmo com outras tantas construções. Algumas idéias são fomentadas no cotidiano, como a de um projeto de lei que objetiva incentivar com descontos nas taxas municipais aqueles proprietários que conservarem as fachadas de seus prédios com pinturas que valorizem detalhes e o visual arquitetônico. O que é uma das partes de estímulo a todo um processo que se pretende de fomento ao turismo, por exemplo, e à valorização do trabalho de homens que ajudaram a construir a cidade.
Essas relações vêm à mente quando Bagé discute temas positivos e que podem trazer muita auto-estima num futuro bem próximo. Há praticamente 50 anos que a cidade abriga um prédio central não terminado. O bom leitor sabe que se está mencionando o Consórcio, cujas indas e vindas se repetem ciclicamente e que até hoje mostraram-se infrutíferas por razões que não cabem ser analisadas no momento. Atualmente faz-se mais uma tentativa, cujo prazo final para a entrega de um laudo técnico expira no próximo dia 15 de outubro. É mais uma tentativa que, se espera, conceda, senão o resultado, pelo menos uma noção mais clara dos rumos que podem ser tomados.
Independentemente do que possa acontecer nesse âmbito extremamente pragmático, conversas informais entre pessoas interessadas no bem público têm apontado para uma solução que, vindo a acontecer, poderá tornar-se talvez o primeiro grande feito deste início de século XXI. Sem desmerecer os demais feitos, evidente. Trata-se de colocar nas dependências do prédio do Consórcio o projeto que tramita na Câmara pretendendo instituir a Fundação Grupo de Bagé. Dois coelhos numa cajadada só. Ou não?
Se não, raciocine. A questão do resgate do prédio do Consórcio já é uma questão praticamente de honra para a cidade. Sua concepção arquitetônica original deveria abrigar um cinema. Aí parou. A retomada das negociações que se deram este ano apontou novas utilizações, todas bem pensadas e nenhuma delas impeditiva de outra. Até pela força de suas estruturas. A Comissão que o debate de pronto imaginou a instalação de um centro de eventos, pois a cidade reconhecidamente não possui uma construção que possa abrigar, sem improvisos, mais de 300 pessoas sentadas e com as condições de conforto compatíveis com a modernidade.
Uma Fundação como a do Grupo de Bagé vindo a acontecer, que se espera concretize-se, num prédio central daria condições de uma movimentação contínua, para visitações, e ao mesmo tempo tornar-se-ia praticamente auto-sustentável com eventos maiores capazes de proporcionar receitas permanentes e eventuais. Até porque as fundações dessa natureza são centros dinâmicos de cultura – não se concebe museus como apenas um lugar de guarda de acervos – e que se tornam com boa administração locais corretos para a dinamização das discussões de todas as naturezas e como ponto de referência comunitária.
O resgate, por essa via, seria praticamente completo. Bagé estaria finalizando uma obra encantada, permitindo um novo cartão postal para o centro da cidade, no epicentro de sua efervescência, e ao mesmo tempo abrigaria nomes internacionais para a difusão permanente de um de seus grandes patrimônios. Que, após iniciado, chamaria outros tantos possíveis de serem agregados que só estão á espera do passo inicial.
Tudo não passa apenas de uma idéia que depende da vontade simples de algumas pessoas e que, não há dúvida, traria uma espécie de renascimento numa terra que muitas vezes só sabe comentar o passado sem lembrar que a dinâmica da vida depende, mais do que tudo, da esperança. E da vontade de fazer.
Ao se caminhar pela cidade de Bagé, que também possui a sua história e bastante rica em feitos com seus significados, perceberá, num primeiro momento, que restam poucos dos prédios mais antigos a partir do endereço de nascimento da sua urbanização. Talvez a Casa de Pedra, por sinal bastante menosprezada pelo simbolismo que esconde, seja um dos poucos endereços da que ainda permanece em pé, embora esteja impedida uma visita a seu interior, das antigas construções mais rústicas e sobre as quais existem lendas que jamais foram derrubadas.
Aquela casa, a de Pedra, é um patrimônio, evidente, público. Assim como o são tantas outras construções que mesmo permanecendo nas mãos de particulares tornaram-se pontas de orgulho de todo o cidadão bajeense. Ou seja, uma manifestação subjetiva que resultou na falta de distância entre a materialidade do ter e a espiritualidade do acervo comunitário que independe de todo e qualquer critério de classificação hierárquica, econômica ou social. É quando se diz aquela frase de senso comum de que essas coisas são nossas.
Teve alguém, num passado nem tão recente porém nem tão antigo, ou várias iniciativas que tiveram a idéia de realizar um inventário dos prédios históricos de Bagé, muitos deles inclusive saindo da esfera das boas intenções para entrar no rol da prática. Um exemplo é a casa do Visconde Ribeiro de Magalhães, dissecada em seus pormenores por profissionais e estudantes de arquitetura e cuja restauração, numa campanha meritória, levou até o momento apenas a restauração da capela que abriga, num esforço já decantado pelos meios de comunicação e reconhecido indistintamente.
Na mesma trajetória dever-se-ia fazer o mesmo com outras tantas construções. Algumas idéias são fomentadas no cotidiano, como a de um projeto de lei que objetiva incentivar com descontos nas taxas municipais aqueles proprietários que conservarem as fachadas de seus prédios com pinturas que valorizem detalhes e o visual arquitetônico. O que é uma das partes de estímulo a todo um processo que se pretende de fomento ao turismo, por exemplo, e à valorização do trabalho de homens que ajudaram a construir a cidade.
Essas relações vêm à mente quando Bagé discute temas positivos e que podem trazer muita auto-estima num futuro bem próximo. Há praticamente 50 anos que a cidade abriga um prédio central não terminado. O bom leitor sabe que se está mencionando o Consórcio, cujas indas e vindas se repetem ciclicamente e que até hoje mostraram-se infrutíferas por razões que não cabem ser analisadas no momento. Atualmente faz-se mais uma tentativa, cujo prazo final para a entrega de um laudo técnico expira no próximo dia 15 de outubro. É mais uma tentativa que, se espera, conceda, senão o resultado, pelo menos uma noção mais clara dos rumos que podem ser tomados.
Independentemente do que possa acontecer nesse âmbito extremamente pragmático, conversas informais entre pessoas interessadas no bem público têm apontado para uma solução que, vindo a acontecer, poderá tornar-se talvez o primeiro grande feito deste início de século XXI. Sem desmerecer os demais feitos, evidente. Trata-se de colocar nas dependências do prédio do Consórcio o projeto que tramita na Câmara pretendendo instituir a Fundação Grupo de Bagé. Dois coelhos numa cajadada só. Ou não?
Se não, raciocine. A questão do resgate do prédio do Consórcio já é uma questão praticamente de honra para a cidade. Sua concepção arquitetônica original deveria abrigar um cinema. Aí parou. A retomada das negociações que se deram este ano apontou novas utilizações, todas bem pensadas e nenhuma delas impeditiva de outra. Até pela força de suas estruturas. A Comissão que o debate de pronto imaginou a instalação de um centro de eventos, pois a cidade reconhecidamente não possui uma construção que possa abrigar, sem improvisos, mais de 300 pessoas sentadas e com as condições de conforto compatíveis com a modernidade.
Uma Fundação como a do Grupo de Bagé vindo a acontecer, que se espera concretize-se, num prédio central daria condições de uma movimentação contínua, para visitações, e ao mesmo tempo tornar-se-ia praticamente auto-sustentável com eventos maiores capazes de proporcionar receitas permanentes e eventuais. Até porque as fundações dessa natureza são centros dinâmicos de cultura – não se concebe museus como apenas um lugar de guarda de acervos – e que se tornam com boa administração locais corretos para a dinamização das discussões de todas as naturezas e como ponto de referência comunitária.
O resgate, por essa via, seria praticamente completo. Bagé estaria finalizando uma obra encantada, permitindo um novo cartão postal para o centro da cidade, no epicentro de sua efervescência, e ao mesmo tempo abrigaria nomes internacionais para a difusão permanente de um de seus grandes patrimônios. Que, após iniciado, chamaria outros tantos possíveis de serem agregados que só estão á espera do passo inicial.
Tudo não passa apenas de uma idéia que depende da vontade simples de algumas pessoas e que, não há dúvida, traria uma espécie de renascimento numa terra que muitas vezes só sabe comentar o passado sem lembrar que a dinâmica da vida depende, mais do que tudo, da esperança. E da vontade de fazer.
Fazer turístico
O tema serviu como motivo para outras abordagens, porém ao largo de ser necessária a sua divulgação jamais se tornará excessivo enquanto não existir um direcionamento coletivo em sua compreensão e, mais, assimilação, justamente porque acima de tudo se trata de um meio cultural que deve estar indiscriminado para que se atinja os fins e os objetivos propostos.
Nos últimos cinco anos, talvez um pouco mais para trás, começou a existir uma nova preocupação na comunidade bajeense na busca de um bem que agregasse novos patamares ao desenvolvimento econômico. Deram-se as primeiras palavras em torno do fomento ao turismo, talvez a maior fonte de recursos do planeta na atualidade. Isso porque nos últimos 80 anos, somou-se à base produtiva do modelo implantado, justo e positivo, mantida e respeitada sua tradição, apenas um produto que viesse a complementar a renda de uma significativa área do mapa rio-grandense. Outras tentativas esparsas por caminhos diversos não tiveram o mesmo êxito, cujas análises pormenorizadas merecem um capítulo a parte.
O modelo turístico, de uma certa forma, acabou tendo relativa aceitação e derivaram no surgimento de alguns pioneiros que se arriscaram a buscar essa linha de atividades. Para quem observar com determinada acuidade, verificará que desde os primeiros impulsos dessa curta e nova tradição, excetuando-se os aventureiros indefectíveis, os que abraçaram a causa sem titubear até agora não observaram um retrocesso, pelo contrário, têm realizado de maneira ainda que silenciosa, novas empreitadas e conquistado conhecimentos específicos que valorizam suas atividades.
Mas enquanto esses empreendedores solitários, embora trabalhos conjuntos tenham feito parte de suas agendas, vêm percorrendo as diretrizes reconhecidas e consagradas em outras fontes de expressão, o ambiente cultural do turismo, visto como meio, ainda não se alastrou para além das divisas dos formadores de opinião. Nada mais natural porquanto as relações simbólicas permanentes se encontram direcionadas para outros elementos e toda e qualquer inovação, ou mesmo mudança, requer estágios informacionalistas até chegar a fazer parte do vocabulário cotidiano.
O alastramento das informações e das opiniões sobre turismo ganharam mais impulso de uns dois a três anos, no máximo, pregressos. Numa primeira etapa, restringiram-se a eventos fragmentados que, se para alguém não possui significado, na realidade jamais deixarão de ser os convívios iniciais com um novo patamar que se aproxima. É quando a cidade aprende a receber, começa a dar importância e reconhecimento à materialidade da nova cultura e passa, então, a raciociná-la já de uma forma diferenciada.
No ano de 2000 um balanço estatístico conseguiu constatar que muito se fizera num curto espaço de tempo. Da esfera simplesmente executiva, começou a se alastrar ao ambiente público e dali aos limites privados, tornando-se pauta de conversas informais. Acima disso, o próprio ambiente social deu sinais de que passou a olhar em seu redor uma série de elementos que sempre existiram e que invariavelmente estavam sendo olhados com pouco caso e, em algumas vezes, até mesmo com certo desdém.
Foi quando o bajeense viu que tinha cultura, passado, representação e, para quem não sabe, inclusive um capital simbólico que nunca havia sido transformado em commodity, aqui visto como excedente oferecido ao consumo. Fora de suas divisas, a representação do gaúcho sempre levou à lembrança do bajeense e se, numa época de desenvolvimento tecnológico pareceria um tanto quanto pejorativa essa imagem, justamente àqueles aos quais deveria ter sido oferecido o bem conquistado ao longo dos dois séculos de existência são os que reconhecem essa estado de vida como uma forma diferente e singular de convivência humana. Que desperta atenções.
Alguns caminhos trilhados nos últimos dias mostram que existe na esfera do poder público a intenção de que seja construído um parque temático em torno do elemento gaúcho. Tecla batida continuamente nos últimos dez meses, teve seus experimentos de intenções, de realização de projetos e, meio que timidamente, de dúvidas quanto à sua eficiência. Mais recentemente, verificou-se o entusiasmo de contatos externos que visaram angariar fundos e, enfim, tornar realidade o que aparentemente deixou de ser uma mera boa intenção.
A oportunidade e a relevância do feito com certeza aparecerão dentro em breve, quando tudo sair do papel. Lá é que vai se discutir o mérito ou não. Só que antes de existir ou não concretamente, não os seus feitores, executores e idealistas, precisam antes de tudo se dar conta da importância que existe em dar suporte complementar a toda e qualquer grande obra que um dia venha a ser cartão postal de mais de 100 mil habitantes.
Será no desenrolar do dia-a-dia que se reconhecerá a oportunidade de um feito dessa envergadura. Um objeto em si por maior que seja, esteticamente mais completo, que exerça o fascínio a quem o admira, que se torne auto-sustentável em todos os limites, enfim, que consagre uma fase comunitária, jamais poderá ter solução de continuidade se em seu entorno não sobrepujar-se a manutenção de uma generalização de seus propósitos e finalidades.
Uma conversa com gente que está interessada começa a perceber essas pequenas nuances para as quais a cidade precisa estar preparada. O sistema de transporte, a capacidade hoteleira, as diversões paralelas, o oferecimento constante de outros objetos que demonstrem complementaridade de ações, a presteza no atendimento e até mesmo a preocupação com a segurança, são componentes inseparáveis do que se convencionou cultura turística.
Concomitantemente à obra, torna-se urgente e fundamental que as pessoas em geral passem a ter noções do que venha a ser conviver com o turismo. Queira-se ou não, até mesmo serviços que a rotina entende como desnecessários, se tornam efetivamente importantes para a criação e sustentação de uma boa imagem. São os casos daqueles serviços que já existem e que com uma infra-estrutura no limite não permitem uma demanda automática nem mesmo de mais cinco pontos percentuais. Porque se de um lado a atração principal chega a um dado momento que se esgota, de outro lado as peculiaridades e o momento imaginado ocioso do visitante clama pelo atendimento imediato.
Turismo para valer precisa de novos horários de abertura do comércio, de um pronto e qualificado atendimento hospitalar, de uma disseminação de idiomas onde quer que se chegue, de um mapeamento e de uma distribuição de símbolos indicativos (exemplo: são poucas as ruas de Bagé que tem em cada esquina o nome do logradouro) e de gente que reconheça no visitante não somente um portador de capital, mas também, e mais do que tudo, um eterno parceiro que divulga as propriedades de um lugar.
Se um dia Bagé quiser ser um referencial turístico rio-grandense, pelas imagens que acabou vendendo sem o saber, deve estar preparada para enfrentar as situações mais inéditas que pode imaginar. E enfrentá-las sempre com um sorriso. E o sorriso depende, antes de qualquer coisa, se desprover de todo e qualquer preconceito que é a regra número um das relações interculturais. A partir de então, novas perspectivas nascerão pela força de seu próprio ambiente que é quando se chega à maturidade. Tarefa que passa pela diversidade de funções e ações que devem ser reunidas em um mesmo patamar. Um dia chega-se lá. Será que não é chegada a hora de começar a agir?
Nos últimos cinco anos, talvez um pouco mais para trás, começou a existir uma nova preocupação na comunidade bajeense na busca de um bem que agregasse novos patamares ao desenvolvimento econômico. Deram-se as primeiras palavras em torno do fomento ao turismo, talvez a maior fonte de recursos do planeta na atualidade. Isso porque nos últimos 80 anos, somou-se à base produtiva do modelo implantado, justo e positivo, mantida e respeitada sua tradição, apenas um produto que viesse a complementar a renda de uma significativa área do mapa rio-grandense. Outras tentativas esparsas por caminhos diversos não tiveram o mesmo êxito, cujas análises pormenorizadas merecem um capítulo a parte.
O modelo turístico, de uma certa forma, acabou tendo relativa aceitação e derivaram no surgimento de alguns pioneiros que se arriscaram a buscar essa linha de atividades. Para quem observar com determinada acuidade, verificará que desde os primeiros impulsos dessa curta e nova tradição, excetuando-se os aventureiros indefectíveis, os que abraçaram a causa sem titubear até agora não observaram um retrocesso, pelo contrário, têm realizado de maneira ainda que silenciosa, novas empreitadas e conquistado conhecimentos específicos que valorizam suas atividades.
Mas enquanto esses empreendedores solitários, embora trabalhos conjuntos tenham feito parte de suas agendas, vêm percorrendo as diretrizes reconhecidas e consagradas em outras fontes de expressão, o ambiente cultural do turismo, visto como meio, ainda não se alastrou para além das divisas dos formadores de opinião. Nada mais natural porquanto as relações simbólicas permanentes se encontram direcionadas para outros elementos e toda e qualquer inovação, ou mesmo mudança, requer estágios informacionalistas até chegar a fazer parte do vocabulário cotidiano.
O alastramento das informações e das opiniões sobre turismo ganharam mais impulso de uns dois a três anos, no máximo, pregressos. Numa primeira etapa, restringiram-se a eventos fragmentados que, se para alguém não possui significado, na realidade jamais deixarão de ser os convívios iniciais com um novo patamar que se aproxima. É quando a cidade aprende a receber, começa a dar importância e reconhecimento à materialidade da nova cultura e passa, então, a raciociná-la já de uma forma diferenciada.
No ano de 2000 um balanço estatístico conseguiu constatar que muito se fizera num curto espaço de tempo. Da esfera simplesmente executiva, começou a se alastrar ao ambiente público e dali aos limites privados, tornando-se pauta de conversas informais. Acima disso, o próprio ambiente social deu sinais de que passou a olhar em seu redor uma série de elementos que sempre existiram e que invariavelmente estavam sendo olhados com pouco caso e, em algumas vezes, até mesmo com certo desdém.
Foi quando o bajeense viu que tinha cultura, passado, representação e, para quem não sabe, inclusive um capital simbólico que nunca havia sido transformado em commodity, aqui visto como excedente oferecido ao consumo. Fora de suas divisas, a representação do gaúcho sempre levou à lembrança do bajeense e se, numa época de desenvolvimento tecnológico pareceria um tanto quanto pejorativa essa imagem, justamente àqueles aos quais deveria ter sido oferecido o bem conquistado ao longo dos dois séculos de existência são os que reconhecem essa estado de vida como uma forma diferente e singular de convivência humana. Que desperta atenções.
Alguns caminhos trilhados nos últimos dias mostram que existe na esfera do poder público a intenção de que seja construído um parque temático em torno do elemento gaúcho. Tecla batida continuamente nos últimos dez meses, teve seus experimentos de intenções, de realização de projetos e, meio que timidamente, de dúvidas quanto à sua eficiência. Mais recentemente, verificou-se o entusiasmo de contatos externos que visaram angariar fundos e, enfim, tornar realidade o que aparentemente deixou de ser uma mera boa intenção.
A oportunidade e a relevância do feito com certeza aparecerão dentro em breve, quando tudo sair do papel. Lá é que vai se discutir o mérito ou não. Só que antes de existir ou não concretamente, não os seus feitores, executores e idealistas, precisam antes de tudo se dar conta da importância que existe em dar suporte complementar a toda e qualquer grande obra que um dia venha a ser cartão postal de mais de 100 mil habitantes.
Será no desenrolar do dia-a-dia que se reconhecerá a oportunidade de um feito dessa envergadura. Um objeto em si por maior que seja, esteticamente mais completo, que exerça o fascínio a quem o admira, que se torne auto-sustentável em todos os limites, enfim, que consagre uma fase comunitária, jamais poderá ter solução de continuidade se em seu entorno não sobrepujar-se a manutenção de uma generalização de seus propósitos e finalidades.
Uma conversa com gente que está interessada começa a perceber essas pequenas nuances para as quais a cidade precisa estar preparada. O sistema de transporte, a capacidade hoteleira, as diversões paralelas, o oferecimento constante de outros objetos que demonstrem complementaridade de ações, a presteza no atendimento e até mesmo a preocupação com a segurança, são componentes inseparáveis do que se convencionou cultura turística.
Concomitantemente à obra, torna-se urgente e fundamental que as pessoas em geral passem a ter noções do que venha a ser conviver com o turismo. Queira-se ou não, até mesmo serviços que a rotina entende como desnecessários, se tornam efetivamente importantes para a criação e sustentação de uma boa imagem. São os casos daqueles serviços que já existem e que com uma infra-estrutura no limite não permitem uma demanda automática nem mesmo de mais cinco pontos percentuais. Porque se de um lado a atração principal chega a um dado momento que se esgota, de outro lado as peculiaridades e o momento imaginado ocioso do visitante clama pelo atendimento imediato.
Turismo para valer precisa de novos horários de abertura do comércio, de um pronto e qualificado atendimento hospitalar, de uma disseminação de idiomas onde quer que se chegue, de um mapeamento e de uma distribuição de símbolos indicativos (exemplo: são poucas as ruas de Bagé que tem em cada esquina o nome do logradouro) e de gente que reconheça no visitante não somente um portador de capital, mas também, e mais do que tudo, um eterno parceiro que divulga as propriedades de um lugar.
Se um dia Bagé quiser ser um referencial turístico rio-grandense, pelas imagens que acabou vendendo sem o saber, deve estar preparada para enfrentar as situações mais inéditas que pode imaginar. E enfrentá-las sempre com um sorriso. E o sorriso depende, antes de qualquer coisa, se desprover de todo e qualquer preconceito que é a regra número um das relações interculturais. A partir de então, novas perspectivas nascerão pela força de seu próprio ambiente que é quando se chega à maturidade. Tarefa que passa pela diversidade de funções e ações que devem ser reunidas em um mesmo patamar. Um dia chega-se lá. Será que não é chegada a hora de começar a agir?
Concepções
Na constante procura de textos que despertem interesse, deparei-me, não faz muito, com uma notável escritora portuguesa. Chama-se Agustina Bessa-Luís, residente na cidade do Porto, com uma produção de romances, contos, ensaios, novelas, biografias e peças de teatro de fazer inveja a quem se apresenta como autor literário. Não é gratuito, assim, que essa mulher, nascida em 1922, esteja colocada ao lado dos cem maiores escritores da história de Portugal. Faz parte de uma equipe que contempla assinaturas destacadas como as de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, José Saramago, Almeida Garret e Luís de Camões.
Entretanto, o mérito de fazer parte de um seleto grupo de intelectuais da península está, a meu ver, umbelicalmente ligado à qualidade e não à quantidade de trabalhos escritos. Com uma erudição que é possível notar desde a primeira linha de qualquer um de seus textos, como uma crônica, por exemplo, Agustina consegue inserir em cada um de seus parágrafos, e mesmo somente numa frase, conceitos de vida, opiniões sobre a história e verdades próprias. Sobre muitas de suas construções sintéticas, penso que seria possível criar obras alongadas e levantar discussões intermináveis à uma merecida reflexão.
Não entendo oportuno agora, neste texto simples, discorrer algumas de suas autorias, porque enfadonho e desproposital. Mas, para melhor situar o leitor, observo que a portuense é signatária de um clássico chamado A Sibila, publicado em 1954, considerado um dos referenciais da ficção lusa. E, para não deixar em branco, cito duas passagens que me pareceram interessantes, com o objetivo de corroborar com as observações aqui mencionadas. “O mundo do pensamento em geral obscurece esse mundo da clara actividade para encontrar o bem.” Em outras palavras, interpreto que as questões formais nunca irão revelar preconceitos, distâncias, soberbas, dominações e outros elementos escondidos que barram o processo da solidariedade.
Quando a simples frase merece uma análise detalhada, convenço-me que mereceria uma disciplina outra assertiva da portuguesa. Assim escreveu em crônica posterior: “A linha do tabu moderno, que condena toda a diferenciação, coloca-nos na contingência de estancar o riso. O louco é uma parcela da sociedade que é preciso integrar; isto passa-se em termos de escritura, porque a escrita humana continua a fazer-se à margem da escritura”. Detalho, antes da tradução, que o destaque é da autora. Adiante, leio a padronização, os processos globais, a morte dos grupos de pertença, o estancamento do indivíduo e a exclusão universal dos “mal nascidos”.
Ao concluir, para matar a eventual curiosidade de meu fascínio, trago à tona outra passagem de Agustina Bessa-Luís. Citando Dostoievsky, lembrou em sua crônica intitulada Espanha e Portugal, que o gênio russo dissera certa feita que “para fazer um país é preciso a convicção de que ele, país, é o melhor do mundo; doutro modo, não se passa de constituir apenas um material etnográfico”. Evidente que a frase não é qualquer espetáculo que minimize alguns dos tantos épicos do período dos descobrimentos. Embora esses mesmos épicos tenham atendido satisfatoriamente bem a aura escondida na composição.
Trouxe o trecho à visualização porque, seguidamente, concebo o esconderijo de algumas impossibilidades comunitárias nas opiniões simples que nos revelam o nosso universo diário. Tanto das materiais quanto das interferências simbólicas. Mais preocupante, quando transparece nas tribos de jovens a quem deveríamos resguardar os sonhos. Acordar, por fim, deve ser a palavra principal, pois só desta maneira estaremos vigilantes à novas descobertas, mesmo que elas estejam preservadas pela história. No que tange a alguns adultos, me parece que muitos ainda não conquistaram outras catedrais, resignando-se a conversar e a entender-se sólidos com a etnografia pura e simples.
Entretanto, o mérito de fazer parte de um seleto grupo de intelectuais da península está, a meu ver, umbelicalmente ligado à qualidade e não à quantidade de trabalhos escritos. Com uma erudição que é possível notar desde a primeira linha de qualquer um de seus textos, como uma crônica, por exemplo, Agustina consegue inserir em cada um de seus parágrafos, e mesmo somente numa frase, conceitos de vida, opiniões sobre a história e verdades próprias. Sobre muitas de suas construções sintéticas, penso que seria possível criar obras alongadas e levantar discussões intermináveis à uma merecida reflexão.
Não entendo oportuno agora, neste texto simples, discorrer algumas de suas autorias, porque enfadonho e desproposital. Mas, para melhor situar o leitor, observo que a portuense é signatária de um clássico chamado A Sibila, publicado em 1954, considerado um dos referenciais da ficção lusa. E, para não deixar em branco, cito duas passagens que me pareceram interessantes, com o objetivo de corroborar com as observações aqui mencionadas. “O mundo do pensamento em geral obscurece esse mundo da clara actividade para encontrar o bem.” Em outras palavras, interpreto que as questões formais nunca irão revelar preconceitos, distâncias, soberbas, dominações e outros elementos escondidos que barram o processo da solidariedade.
Quando a simples frase merece uma análise detalhada, convenço-me que mereceria uma disciplina outra assertiva da portuguesa. Assim escreveu em crônica posterior: “A linha do tabu moderno, que condena toda a diferenciação, coloca-nos na contingência de estancar o riso. O louco é uma parcela da sociedade que é preciso integrar; isto passa-se em termos de escritura, porque a escrita humana continua a fazer-se à margem da escritura”. Detalho, antes da tradução, que o destaque é da autora. Adiante, leio a padronização, os processos globais, a morte dos grupos de pertença, o estancamento do indivíduo e a exclusão universal dos “mal nascidos”.
Ao concluir, para matar a eventual curiosidade de meu fascínio, trago à tona outra passagem de Agustina Bessa-Luís. Citando Dostoievsky, lembrou em sua crônica intitulada Espanha e Portugal, que o gênio russo dissera certa feita que “para fazer um país é preciso a convicção de que ele, país, é o melhor do mundo; doutro modo, não se passa de constituir apenas um material etnográfico”. Evidente que a frase não é qualquer espetáculo que minimize alguns dos tantos épicos do período dos descobrimentos. Embora esses mesmos épicos tenham atendido satisfatoriamente bem a aura escondida na composição.
Trouxe o trecho à visualização porque, seguidamente, concebo o esconderijo de algumas impossibilidades comunitárias nas opiniões simples que nos revelam o nosso universo diário. Tanto das materiais quanto das interferências simbólicas. Mais preocupante, quando transparece nas tribos de jovens a quem deveríamos resguardar os sonhos. Acordar, por fim, deve ser a palavra principal, pois só desta maneira estaremos vigilantes à novas descobertas, mesmo que elas estejam preservadas pela história. No que tange a alguns adultos, me parece que muitos ainda não conquistaram outras catedrais, resignando-se a conversar e a entender-se sólidos com a etnografia pura e simples.
Necessidades especiais
O processo eleitoral ainda não terminou. Foi concluído apenas nas cidades em que não têm segundo turno, devido ao número de eleitores, e nos municípios com mais de 200 mil votantes nos quais um dos candidatos não conquistou a maioria dos sufrágios.
Até aí, nada de novo. O que me impressionou nessas eleições foram algumas dificuldades encontradas por eleitores na hora em que foram às urnas para depositar seus votos. Como se sabe, a lei brasileira dispensa a obrigatoriedade de votar às pessoas com mais de 70 anos. Algo justo. Muita gente madura, convive com problemas de saúde, algumas com problemas de locomoção e outros impedimentos conhecidos que precisam ser respeitados. Só que não residem apenas nessa faixa etária os percalços reais.
Enquanto delegado partidário para a verificação da normalidade do pleito de cinco de outubro, circulei por algumas zonas eleitorais. Em alguns momentos, a função me obrigou a ficar mais tempo em clubes ou escolas onde havias diversas seções. Em períodos não maiores do que meia hora, um grande número de eleitores, homens, mulheres, jovens e adultos, todos com idades inferiores aos 70 anos, reclamavam nos momentos anteriores ao ato cidadão de sufragar o voto. As queixas, invariavelmente, relacionaram-se à necessidade de ter de subir escadas para ir votar. Eram pessoas derramadas, gente que se locomovia em cadeira de rodas, doentes pulmonares e outras tantas doenças que restringem fisicamente a circulação normal.
Evidente que delegados e fiscais partidários ajudavam a quem quer que fosse. Entendo apenas que isto não basta. Parece-me ter chegado o momento, com dúvidas se não está tarde, dos cartórios e tribunais eleitorais olharem com mais atenção a essas pessoas. Num mundo contemporâneo em que o respeito aos portadores de necessidades especiais recebe tratamentos redobrados e diferenciados, devem as nossas autoridades ter considerações específicas para facilitar a vida de todo o cidadão. Compreende-se a existência de outros elementos na administração do processo eleitoral, como a questão de privacidade e segurança, mas urge comportamentos multifuncionais a quem requer um apoio distinto e digno.
Até aí, nada de novo. O que me impressionou nessas eleições foram algumas dificuldades encontradas por eleitores na hora em que foram às urnas para depositar seus votos. Como se sabe, a lei brasileira dispensa a obrigatoriedade de votar às pessoas com mais de 70 anos. Algo justo. Muita gente madura, convive com problemas de saúde, algumas com problemas de locomoção e outros impedimentos conhecidos que precisam ser respeitados. Só que não residem apenas nessa faixa etária os percalços reais.
Enquanto delegado partidário para a verificação da normalidade do pleito de cinco de outubro, circulei por algumas zonas eleitorais. Em alguns momentos, a função me obrigou a ficar mais tempo em clubes ou escolas onde havias diversas seções. Em períodos não maiores do que meia hora, um grande número de eleitores, homens, mulheres, jovens e adultos, todos com idades inferiores aos 70 anos, reclamavam nos momentos anteriores ao ato cidadão de sufragar o voto. As queixas, invariavelmente, relacionaram-se à necessidade de ter de subir escadas para ir votar. Eram pessoas derramadas, gente que se locomovia em cadeira de rodas, doentes pulmonares e outras tantas doenças que restringem fisicamente a circulação normal.
Evidente que delegados e fiscais partidários ajudavam a quem quer que fosse. Entendo apenas que isto não basta. Parece-me ter chegado o momento, com dúvidas se não está tarde, dos cartórios e tribunais eleitorais olharem com mais atenção a essas pessoas. Num mundo contemporâneo em que o respeito aos portadores de necessidades especiais recebe tratamentos redobrados e diferenciados, devem as nossas autoridades ter considerações específicas para facilitar a vida de todo o cidadão. Compreende-se a existência de outros elementos na administração do processo eleitoral, como a questão de privacidade e segurança, mas urge comportamentos multifuncionais a quem requer um apoio distinto e digno.
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