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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Concepções

Na constante procura de textos que despertem interesse, deparei-me, não faz muito, com uma notável escritora portuguesa. Chama-se Agustina Bessa-Luís, residente na cidade do Porto, com uma produção de romances, contos, ensaios, novelas, biografias e peças de teatro de fazer inveja a quem se apresenta como autor literário. Não é gratuito, assim, que essa mulher, nascida em 1922, esteja colocada ao lado dos cem maiores escritores da história de Portugal. Faz parte de uma equipe que contempla assinaturas destacadas como as de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, José Saramago, Almeida Garret e Luís de Camões.
Entretanto, o mérito de fazer parte de um seleto grupo de intelectuais da península está, a meu ver, umbelicalmente ligado à qualidade e não à quantidade de trabalhos escritos. Com uma erudição que é possível notar desde a primeira linha de qualquer um de seus textos, como uma crônica, por exemplo, Agustina consegue inserir em cada um de seus parágrafos, e mesmo somente numa frase, conceitos de vida, opiniões sobre a história e verdades próprias. Sobre muitas de suas construções sintéticas, penso que seria possível criar obras alongadas e levantar discussões intermináveis à uma merecida reflexão.
Não entendo oportuno agora, neste texto simples, discorrer algumas de suas autorias, porque enfadonho e desproposital. Mas, para melhor situar o leitor, observo que a portuense é signatária de um clássico chamado A Sibila, publicado em 1954, considerado um dos referenciais da ficção lusa. E, para não deixar em branco, cito duas passagens que me pareceram interessantes, com o objetivo de corroborar com as observações aqui mencionadas. “O mundo do pensamento em geral obscurece esse mundo da clara actividade para encontrar o bem.” Em outras palavras, interpreto que as questões formais nunca irão revelar preconceitos, distâncias, soberbas, dominações e outros elementos escondidos que barram o processo da solidariedade.
Quando a simples frase merece uma análise detalhada, convenço-me que mereceria uma disciplina outra assertiva da portuguesa. Assim escreveu em crônica posterior: “A linha do tabu moderno, que condena toda a diferenciação, coloca-nos na contingência de estancar o riso. O louco é uma parcela da sociedade que é preciso integrar; isto passa-se em termos de escritura, porque a escrita humana continua a fazer-se à margem da escritura”. Detalho, antes da tradução, que o destaque é da autora. Adiante, leio a padronização, os processos globais, a morte dos grupos de pertença, o estancamento do indivíduo e a exclusão universal dos “mal nascidos”.
Ao concluir, para matar a eventual curiosidade de meu fascínio, trago à tona outra passagem de Agustina Bessa-Luís. Citando Dostoievsky, lembrou em sua crônica intitulada Espanha e Portugal, que o gênio russo dissera certa feita que “para fazer um país é preciso a convicção de que ele, país, é o melhor do mundo; doutro modo, não se passa de constituir apenas um material etnográfico”. Evidente que a frase não é qualquer espetáculo que minimize alguns dos tantos épicos do período dos descobrimentos. Embora esses mesmos épicos tenham atendido satisfatoriamente bem a aura escondida na composição.
Trouxe o trecho à visualização porque, seguidamente, concebo o esconderijo de algumas impossibilidades comunitárias nas opiniões simples que nos revelam o nosso universo diário. Tanto das materiais quanto das interferências simbólicas. Mais preocupante, quando transparece nas tribos de jovens a quem deveríamos resguardar os sonhos. Acordar, por fim, deve ser a palavra principal, pois só desta maneira estaremos vigilantes à novas descobertas, mesmo que elas estejam preservadas pela história. No que tange a alguns adultos, me parece que muitos ainda não conquistaram outras catedrais, resignando-se a conversar e a entender-se sólidos com a etnografia pura e simples.

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