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terça-feira, 14 de outubro de 2008

Fazer turístico

O tema serviu como motivo para outras abordagens, porém ao largo de ser necessária a sua divulgação jamais se tornará excessivo enquanto não existir um direcionamento coletivo em sua compreensão e, mais, assimilação, justamente porque acima de tudo se trata de um meio cultural que deve estar indiscriminado para que se atinja os fins e os objetivos propostos.
Nos últimos cinco anos, talvez um pouco mais para trás, começou a existir uma nova preocupação na comunidade bajeense na busca de um bem que agregasse novos patamares ao desenvolvimento econômico. Deram-se as primeiras palavras em torno do fomento ao turismo, talvez a maior fonte de recursos do planeta na atualidade. Isso porque nos últimos 80 anos, somou-se à base produtiva do modelo implantado, justo e positivo, mantida e respeitada sua tradição, apenas um produto que viesse a complementar a renda de uma significativa área do mapa rio-grandense. Outras tentativas esparsas por caminhos diversos não tiveram o mesmo êxito, cujas análises pormenorizadas merecem um capítulo a parte.
O modelo turístico, de uma certa forma, acabou tendo relativa aceitação e derivaram no surgimento de alguns pioneiros que se arriscaram a buscar essa linha de atividades. Para quem observar com determinada acuidade, verificará que desde os primeiros impulsos dessa curta e nova tradição, excetuando-se os aventureiros indefectíveis, os que abraçaram a causa sem titubear até agora não observaram um retrocesso, pelo contrário, têm realizado de maneira ainda que silenciosa, novas empreitadas e conquistado conhecimentos específicos que valorizam suas atividades.
Mas enquanto esses empreendedores solitários, embora trabalhos conjuntos tenham feito parte de suas agendas, vêm percorrendo as diretrizes reconhecidas e consagradas em outras fontes de expressão, o ambiente cultural do turismo, visto como meio, ainda não se alastrou para além das divisas dos formadores de opinião. Nada mais natural porquanto as relações simbólicas permanentes se encontram direcionadas para outros elementos e toda e qualquer inovação, ou mesmo mudança, requer estágios informacionalistas até chegar a fazer parte do vocabulário cotidiano.
O alastramento das informações e das opiniões sobre turismo ganharam mais impulso de uns dois a três anos, no máximo, pregressos. Numa primeira etapa, restringiram-se a eventos fragmentados que, se para alguém não possui significado, na realidade jamais deixarão de ser os convívios iniciais com um novo patamar que se aproxima. É quando a cidade aprende a receber, começa a dar importância e reconhecimento à materialidade da nova cultura e passa, então, a raciociná-la já de uma forma diferenciada.
No ano de 2000 um balanço estatístico conseguiu constatar que muito se fizera num curto espaço de tempo. Da esfera simplesmente executiva, começou a se alastrar ao ambiente público e dali aos limites privados, tornando-se pauta de conversas informais. Acima disso, o próprio ambiente social deu sinais de que passou a olhar em seu redor uma série de elementos que sempre existiram e que invariavelmente estavam sendo olhados com pouco caso e, em algumas vezes, até mesmo com certo desdém.
Foi quando o bajeense viu que tinha cultura, passado, representação e, para quem não sabe, inclusive um capital simbólico que nunca havia sido transformado em commodity, aqui visto como excedente oferecido ao consumo. Fora de suas divisas, a representação do gaúcho sempre levou à lembrança do bajeense e se, numa época de desenvolvimento tecnológico pareceria um tanto quanto pejorativa essa imagem, justamente àqueles aos quais deveria ter sido oferecido o bem conquistado ao longo dos dois séculos de existência são os que reconhecem essa estado de vida como uma forma diferente e singular de convivência humana. Que desperta atenções.
Alguns caminhos trilhados nos últimos dias mostram que existe na esfera do poder público a intenção de que seja construído um parque temático em torno do elemento gaúcho. Tecla batida continuamente nos últimos dez meses, teve seus experimentos de intenções, de realização de projetos e, meio que timidamente, de dúvidas quanto à sua eficiência. Mais recentemente, verificou-se o entusiasmo de contatos externos que visaram angariar fundos e, enfim, tornar realidade o que aparentemente deixou de ser uma mera boa intenção.
A oportunidade e a relevância do feito com certeza aparecerão dentro em breve, quando tudo sair do papel. Lá é que vai se discutir o mérito ou não. Só que antes de existir ou não concretamente, não os seus feitores, executores e idealistas, precisam antes de tudo se dar conta da importância que existe em dar suporte complementar a toda e qualquer grande obra que um dia venha a ser cartão postal de mais de 100 mil habitantes.
Será no desenrolar do dia-a-dia que se reconhecerá a oportunidade de um feito dessa envergadura. Um objeto em si por maior que seja, esteticamente mais completo, que exerça o fascínio a quem o admira, que se torne auto-sustentável em todos os limites, enfim, que consagre uma fase comunitária, jamais poderá ter solução de continuidade se em seu entorno não sobrepujar-se a manutenção de uma generalização de seus propósitos e finalidades.
Uma conversa com gente que está interessada começa a perceber essas pequenas nuances para as quais a cidade precisa estar preparada. O sistema de transporte, a capacidade hoteleira, as diversões paralelas, o oferecimento constante de outros objetos que demonstrem complementaridade de ações, a presteza no atendimento e até mesmo a preocupação com a segurança, são componentes inseparáveis do que se convencionou cultura turística.
Concomitantemente à obra, torna-se urgente e fundamental que as pessoas em geral passem a ter noções do que venha a ser conviver com o turismo. Queira-se ou não, até mesmo serviços que a rotina entende como desnecessários, se tornam efetivamente importantes para a criação e sustentação de uma boa imagem. São os casos daqueles serviços que já existem e que com uma infra-estrutura no limite não permitem uma demanda automática nem mesmo de mais cinco pontos percentuais. Porque se de um lado a atração principal chega a um dado momento que se esgota, de outro lado as peculiaridades e o momento imaginado ocioso do visitante clama pelo atendimento imediato.
Turismo para valer precisa de novos horários de abertura do comércio, de um pronto e qualificado atendimento hospitalar, de uma disseminação de idiomas onde quer que se chegue, de um mapeamento e de uma distribuição de símbolos indicativos (exemplo: são poucas as ruas de Bagé que tem em cada esquina o nome do logradouro) e de gente que reconheça no visitante não somente um portador de capital, mas também, e mais do que tudo, um eterno parceiro que divulga as propriedades de um lugar.
Se um dia Bagé quiser ser um referencial turístico rio-grandense, pelas imagens que acabou vendendo sem o saber, deve estar preparada para enfrentar as situações mais inéditas que pode imaginar. E enfrentá-las sempre com um sorriso. E o sorriso depende, antes de qualquer coisa, se desprover de todo e qualquer preconceito que é a regra número um das relações interculturais. A partir de então, novas perspectivas nascerão pela força de seu próprio ambiente que é quando se chega à maturidade. Tarefa que passa pela diversidade de funções e ações que devem ser reunidas em um mesmo patamar. Um dia chega-se lá. Será que não é chegada a hora de começar a agir?

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