Qualquer pessoa que esteja atenta ao patrimônio histórico de algum município percebe que as obras históricas se localizam, invariavelmente, nos centros das cidades. Por uma razão simples e óbvia. É a partir de um determinado ponto que surgem as urbes e seu crescimento horizontal e mesmo vertical se dá desde então do ponto zero. Uma viagem a qualquer endereço do mundo pode perfeitamente comprovar isso e, as obras periféricas, muitas delas valiosas e consistente, na verdade jamais farão parte dos primórdios da história de qualquer aglomeração urbana.
Ao se caminhar pela cidade de Bagé, que também possui a sua história e bastante rica em feitos com seus significados, perceberá, num primeiro momento, que restam poucos dos prédios mais antigos a partir do endereço de nascimento da sua urbanização. Talvez a Casa de Pedra, por sinal bastante menosprezada pelo simbolismo que esconde, seja um dos poucos endereços da que ainda permanece em pé, embora esteja impedida uma visita a seu interior, das antigas construções mais rústicas e sobre as quais existem lendas que jamais foram derrubadas.
Aquela casa, a de Pedra, é um patrimônio, evidente, público. Assim como o são tantas outras construções que mesmo permanecendo nas mãos de particulares tornaram-se pontas de orgulho de todo o cidadão bajeense. Ou seja, uma manifestação subjetiva que resultou na falta de distância entre a materialidade do ter e a espiritualidade do acervo comunitário que independe de todo e qualquer critério de classificação hierárquica, econômica ou social. É quando se diz aquela frase de senso comum de que essas coisas são nossas.
Teve alguém, num passado nem tão recente porém nem tão antigo, ou várias iniciativas que tiveram a idéia de realizar um inventário dos prédios históricos de Bagé, muitos deles inclusive saindo da esfera das boas intenções para entrar no rol da prática. Um exemplo é a casa do Visconde Ribeiro de Magalhães, dissecada em seus pormenores por profissionais e estudantes de arquitetura e cuja restauração, numa campanha meritória, levou até o momento apenas a restauração da capela que abriga, num esforço já decantado pelos meios de comunicação e reconhecido indistintamente.
Na mesma trajetória dever-se-ia fazer o mesmo com outras tantas construções. Algumas idéias são fomentadas no cotidiano, como a de um projeto de lei que objetiva incentivar com descontos nas taxas municipais aqueles proprietários que conservarem as fachadas de seus prédios com pinturas que valorizem detalhes e o visual arquitetônico. O que é uma das partes de estímulo a todo um processo que se pretende de fomento ao turismo, por exemplo, e à valorização do trabalho de homens que ajudaram a construir a cidade.
Essas relações vêm à mente quando Bagé discute temas positivos e que podem trazer muita auto-estima num futuro bem próximo. Há praticamente 50 anos que a cidade abriga um prédio central não terminado. O bom leitor sabe que se está mencionando o Consórcio, cujas indas e vindas se repetem ciclicamente e que até hoje mostraram-se infrutíferas por razões que não cabem ser analisadas no momento. Atualmente faz-se mais uma tentativa, cujo prazo final para a entrega de um laudo técnico expira no próximo dia 15 de outubro. É mais uma tentativa que, se espera, conceda, senão o resultado, pelo menos uma noção mais clara dos rumos que podem ser tomados.
Independentemente do que possa acontecer nesse âmbito extremamente pragmático, conversas informais entre pessoas interessadas no bem público têm apontado para uma solução que, vindo a acontecer, poderá tornar-se talvez o primeiro grande feito deste início de século XXI. Sem desmerecer os demais feitos, evidente. Trata-se de colocar nas dependências do prédio do Consórcio o projeto que tramita na Câmara pretendendo instituir a Fundação Grupo de Bagé. Dois coelhos numa cajadada só. Ou não?
Se não, raciocine. A questão do resgate do prédio do Consórcio já é uma questão praticamente de honra para a cidade. Sua concepção arquitetônica original deveria abrigar um cinema. Aí parou. A retomada das negociações que se deram este ano apontou novas utilizações, todas bem pensadas e nenhuma delas impeditiva de outra. Até pela força de suas estruturas. A Comissão que o debate de pronto imaginou a instalação de um centro de eventos, pois a cidade reconhecidamente não possui uma construção que possa abrigar, sem improvisos, mais de 300 pessoas sentadas e com as condições de conforto compatíveis com a modernidade.
Uma Fundação como a do Grupo de Bagé vindo a acontecer, que se espera concretize-se, num prédio central daria condições de uma movimentação contínua, para visitações, e ao mesmo tempo tornar-se-ia praticamente auto-sustentável com eventos maiores capazes de proporcionar receitas permanentes e eventuais. Até porque as fundações dessa natureza são centros dinâmicos de cultura – não se concebe museus como apenas um lugar de guarda de acervos – e que se tornam com boa administração locais corretos para a dinamização das discussões de todas as naturezas e como ponto de referência comunitária.
O resgate, por essa via, seria praticamente completo. Bagé estaria finalizando uma obra encantada, permitindo um novo cartão postal para o centro da cidade, no epicentro de sua efervescência, e ao mesmo tempo abrigaria nomes internacionais para a difusão permanente de um de seus grandes patrimônios. Que, após iniciado, chamaria outros tantos possíveis de serem agregados que só estão á espera do passo inicial.
Tudo não passa apenas de uma idéia que depende da vontade simples de algumas pessoas e que, não há dúvida, traria uma espécie de renascimento numa terra que muitas vezes só sabe comentar o passado sem lembrar que a dinâmica da vida depende, mais do que tudo, da esperança. E da vontade de fazer.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
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3 comentários:
professor,
que bom ler seu blog...
voltarei, certamente...
grande abraço
Parabéns Mestre Orlando!
Tanto pela iniciativa do blog, quanto pelo seu conteúdo! Certamente passarei por aqui muitas vezes para aprender, refrescar a memória e matar a saudade, é claro!
Adorei os assuntos em questão e a tua presença neste mudo tecnológico!
abs
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